O Fascínio do Calendário

"Uma das primeiras coisas de que tomamos consciência quando nos tornamos conscientes é a passagem do tempo"


O tempo é um rio que corre.

Ele é largo e profundo, e todos nós existimos em seu curso. Você e seus ancestrais, os construtores de Stonehenge, na Inglaterra, e das pirâmides de Kush, no Sudão, a legendária Helena de Tróia e a contemporânea Helen Hunt. Todos fazem parte do mesmo rio. O tempo para a maioria de nós é desprovido de interesse, sem peso ou textura próprios. Flui além do amanhecer do dia seguinte, do Ramadã e do Yom Kippur, de 1492 e 1822.

Consideramos, porém, o tempo como se fosse tão concreto quanto um Rolex de ouro. Organizamos e dimensionamos nossa vida em sua conformidade. Comemorações e aniversários são claras indicações que nos dizem em que altura da vida nos encontramos. Tomemos os 50 anos de idade. Esse número redondo já atingiu as mais velhas das 78 milhões de pessoas nascidas nos Estados Unidos de 1946 a 1965. Cerca de 10 mil dos nascidos naquele período dobram a casa dos 50 todos os dias. Outros 3,65 milhões o farão até o fim de 1999.

Tempo é indústria também. Sessenta e cinco milhões de relógios são vendidos nos EUA todos os anos, de acordo com a Timex, e as pessoas que fabricam agendas vendem de 4 a 6 milhões de unidades a cada ano - de agendas diárias a páginas de reposição para o ano vindouro.

E agora, com o início oficial do terceiro milênio em 1o de janeiro de 2001, o tempo ocupará nossa mente, a mídia e os eventos sociais. A Internet está tomada de sites relacionados com o milênio, de programadores de festas a produtos comemorativos. As nações insulares do Pacífico, Tonga, Kiribati e Nova Zelândia, foram as primeiras a assistir ao alvorecer do ano 2000, no melhor atrativo para os cruzeiros marítimos.


2000 ou 2001
Quando começa o terceiro milênio?

O terceiro milênio tem início oficialmente no dia 1o de janeiro de 2001. Mas há, sim, o que celebrar: o ano 2000 é o último de um período de mil anos estabelecido pelo sistema de contagem de Dionísio Exiguus no século VI. Dionísio formulou seu método antes da adoção do conceito do número zero - definiu, portanto, que o nascimento de Jesus ocorrera no ano 1. A partir daí, estabeleceu-se que um século só termina ao fim do 100o ano.

Apesar da evidência histórica de que Jesus provavelmente tenha nascido quatro ou cinco anos antes do ano 1 d.C., o Vaticano, em Roma, está respeitando o jubileu do ano 2000. Algumas seitas cristãs milenares estão antecipando o retorno triunfal de Jesus e a batalha final entre o Bem e o Mal, como seus tementes predecessores o fizeram quando o calendário mudou de 999 para 1000. Tudo em virtude do tempo e do modo aleatório como às vezes o medimos.

Eis uma definição ampla de tempo, extraída do Oxford English Dictionary: "Uma extensão finita de uma existência contínua". O lapso de tempo correspondente à expectativa média de vida entre as mulheres (79 anos), por exemplo, ou do mosquito Anopheles (de 7 a 10 dias). "Uma das primeiras coisas de que tomamos consciência quando nos tornamos conscientes é a passagem do tempo", diz David Ewing Duncan, autor de um livro sobre a evolução dos calendários. "A razão é simples: nascemos e depois morremos, somos seres lineares." E cedo incorporamos a consciência do tempo em nossa vida e em nossa cultura. Nosso linguajar cotidiano está cheio disto: tempo de vida, bons tempos, maus tempos, há muito tempo que não o vejo, o tempo trabalha a nosso favor, parece que foi ontem.

"O tempo está presente em toda a infra-estrutura da sociedade", diz o astrônomo Dennis McCarthy, diretor de Tempo do Observatório Naval dos Estados Unidos, em Washington. Essa instituição, criada em 1830 para auxiliar a navegação marítima, determinou o tempo ao medir a lenta rotação de nosso planeta. Contudo, o movimento rotatório da Terra não é exato; uma tempestade sobre o Pacífico, investindo contra as Montanhas Rochosas, por exemplo, pode literalmente reduzir a velocidade do planeta.

Hoje, os 70 relógios instalados no observatório medem muito mais acuradamente a passagem dos segundos por meio da ressonância de átomos do metal césio. O estabelecimento da média dos tempos de 30 dos mais precisos desses relógios atômicos serviu para criar um padrão com a precisão de um décimo de um bilionésimo de segundo por dia (mais ou menos).

O produto resultante - tempo - é "distribuído" via satélite, telefone e Internet a outros cronometristas, cientistas, navegadores, empresas de comunicação e gente que simplesmente quer saber que horas são. A exemplo dos técnicos do Observatório Naval, o restante das pessoas mede o tempo invisível e confere a essas medidas um real significado.

O modo como dimensionamos o tempo depende de onde nos encontramos no universo. A maioria dos historiadores e astrônomos afirma que apenas na Terra os anos 2000 e 2001 têm um significado intrínseco. "A compreensão que temos de um dia ou de um ano é muito localizada", diz a astrônoma Susan Trammell, da Universidade da Carolina do Norte. "A duração de um dia é o tempo que a Terra leva para girar uma vez sobre seu próprio eixo. Mesmo em nosso sistema solar, essa é uma medida relativa."

Desse modo, tempo e milênios significam o que nós resolvemos que signifiquem. Bem antes do alvoroço do ano 2000, antes que qualquer um soubesse o que o tempo queria dizer, os homens primitivos começaram a ver ordem nos movimentos da Lua, do Sol e das estrelas. Resolveram que poderiam calcular o tempo. Trinta milênios atrás, o homem de Cro-Magnon, numa região que hoje é a Dordogne, na França, verificou a regularidade das fases da Lua e as anotou num osso que resistiu até nossos dias. Era uma das primeiras tentativas de montar um calendário. Era mais do que simplesmente um truque inteligente. Vidas dependiam dele.

"Imaginem a vida sem o calendário", diz o escritor Duncan. "Se você é um homem das cavernas tentando calcular quando a rena estará retornando à França, você necessita de algum tipo de sistema." Os egípcios, há 6 mil anos, foram os primeiros a bolar algo parecido com os calendários atuais. Os camponeses que viviam às margens do Rio Nilo se deram conta de que esse vital curso d'água inundava a intervalos previsíveis. Essa observação, diz Duncan, transformou-se num dos mais comuns e antigos calendários solares, permitindo aos agricultores planejar, plantar e colher nos intervalos entre as cheias.

O sistema de plantio media o ano solar. Rastreava ciclos de resfriamento planetário (a neve caindo das montanhas nas nascentes dos rios) e aquecimento (a neve derretendo e inundando o Nilo) à medida que o eixo da Terra se inclinava em sua órbita ao redor do Sol. Logo depois, astrônomos egípcios calcularam a duração de uma órbita - o que nós agora denominamos "ano" - em 365 dias e seis horas, somente 11 minutos e 12 segundos mais do que o padrão atual. "Toda cultura, não importa quão sofisticada seja, tem alguma forma de marcar a passagem do tempo", afirma Duncan.



Outras datas
Há 40 modalidades de datação no mundo. Quando o calendário gregoriano está em 2000, estaremos no ano...

88 no calendário da Coréia do Norte

1378 no calendário pérsico

1420 no calendário muçulmano

1921 no calendário civil indiano

5100 no antigo calendário hindu

5760 no calendário judaico

Veja: Conversor entre calendários antigos e calculadora romana !!!!

Povos separados por oceanos, sem estar a par um do outro, desenvolveram calendários de aproximadamente idênticas extensões. A civilização maia, na América Central, fixou calendários de 260 e 365 dias valendo- se do Sol, da Lua e do planeta Vênus. Bali, na Indonésia, obedecia a um sistema de 12 meses. Em 2600 a.C., os chineses arquitetaram um calendário lunar mensal. Uma sucessão de povos no sul da Inglaterra utilizou-se das pedras de Stonehenge para retratar o movimento do Sol, da Lua e das estrelas através do céu. Alguns dos antigos calendários ainda estão em uso, mas a difusão do cristianismo ao redor do planeta nos últimos 2 mil anos disseminou também o calendário da fé. Uma versão antiga, o calendário juliano, foi apresentado em Roma em 45 a.C. pelo imperador Júlio César. Tratava-se, na verdade, da revisão de um calendário existente havia 700 anos. No século VI d.C., um monge católico chamado Dionísio Exiguus foi o primeiro a contar o tempo formalmente a partir da data que ele calculava ser a do nascimento de Jesus.

As pessoas não faziam a contagem dos séculos até 1300. Somente a partir de 1920 (isso mesmo, 1920) é que se desenvolveu o conceito de década como forma de caracterizar um tempo de mudança. No final do século XVI, com os dias dos anos bissextos acumulados, fazendo com que a data da Páscoa vagasse confusamente pelo velho calendário, o papa Gregório XIII estabeleceu o sistema que utilizamos hoje em dia, o chamado calendário gregoriano.

Embora nem todos estejam contentes com uma folhinha que requer um verso para lembrar qual mês tem quantos dias (Trinta dias tem setembro,/abril, junho e novembro/se for bissexto, mais um lhe dêem/E os demais, que sete são /trinta e um todos terão), o calendário gregoriano é o padrão global. Trinta mil anos depois de o homem de Cro-Magnon calcular o tempo observando a Lua, o calendário gregoriano é o modo como medimos o fluxo anual do rio do tempo. 

Mais: A origem dos nomes dos meses do calendário



                        Fonte: Revista Época, Editora Globo 2000  ;
By: Hollis L. Engley, Gannett News Service/USA Today


 




   
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