Artigo do IGGe revisto e publicado na Revista Direcional Educador, n.35, dez/2007
Original: 2003 - Copyright ©  Instituto Galileo Galilei para a Educação

 

Matemática , Tecnologia e Educação Politicamente Incorreta - uso da calculadora em sala de aula

 

Não basta saber, é preciso também saber aplicar, isto é, saber tomar decisões. Não basta querer, é preciso também saber agir. (Goethe)

 

Alguém por aí ainda escreve usando a velha, enferrujada e barulhenta máquina de escrever?

Outro dia usei o termo "máquina de escrever" numa sala com alunos de sexta série e foi então que percebi que a garotada mais nova nem sabe mais o que é isso. Nunca viu uma. Tive que explicar bem rapidamente o que era, ainda meio sem graça por isso me fazer parecer uma espécie de fóssil extinto. De qualquer modo, é ótimo que eles não saibam o que é, pois máquina de escrever é que nem disco de vinil: não fazem mais falta na nossa sociedade, já que tiveram substitutos mais competentes.

Com essa estória, me lembrei da máquina de calcular eletrônica, a calculadora. Elas ficaram acessíveis em preço nos fim dos anos 1970. Aposentaram as máquinas mecânicas, a régua de cálculo (tá legal, se você tem menos de quarenta anos de idade também não sabe o que isso: sorte sua!) e colocaram o lápis e papel em lugar secundário em todas as profissões e tarefas que utilizavam a matemática como ferramenta. Nos anos 1990, com o computador pessoal, veio a última pá de cal e agora uma calculadora pode ser comprada no vendedor ambulante da esquina, gastando-se uns poucos reais.

Mas, sabe-se lá porque, ainda existe um lugar que ainda funciona exatamente como era há 50 anos atrás: a aula de Matemática do ensino fundamental e médio. Muitas escolas públicas não tem ainda computadores para uso com os alunos, só há o velho giz e lousa e um professor falando (aliás, falando sozinho, na maioria das vezes), mas nem é disso que eu quero falar.

O problema mais sério aqui é, creio eu, fingir que a calculadora ainda não foi inventada. A escola (digo, o professor de Matemática, principalmente) enxerga a calculadora como um objeto impuro, pornográfico, a ponto de bani-la da sua sala de aula. Ainda acredita, desmerecendo o valor da própria disciplina que ensina, que matemática é "aprender a fazer contas". Assim, vê a calculadora da mesma maneira que vê a "cola" que um aluno faz de fórmulas de Física ou Química para consultar em dia de prova.

Querendo ensinar o aluno a ser uma máquina de calcular ambulante, precisa e exata, estamos esquecendo o que é Matemática. E mais, estamos obrigando o aluno que vive no século XXI a viver num mundo que não mais existe, das carroças, das máquinas de escrever e do disco de vinil. A Matemática tem muito mais a ver com "aprender a pensar quantitativamente" do que com "aprender a fazer conta de cabeça", para não falar em muitas outras coisas que aqui não cabem, já que este texto não se propõe a isso.

O fato é que nem mesmo o professor que não inclui a utilização racional da calculadora como ferramenta de ensino deixa de usá-la em sua vida particular. Na sala de aula, finge que ela não existe, mas assim que o último aluno sai da classe ele a puxa do bolso para calcular a média das provas da classe. Em casa, faz tudo com ela: porcentagens, imposto de renda, confere a compra do supermercado, e até mesmo resolve com ela os exercícios que está preparando para dar na próxima aula para os seus alunos. E lá se vão 11 anos de escola com aulas de Matemática voltadas para "aprender a fazer contas"...

Aprender a pensar, desenvolver o raciocínio lógico, a aplicar a matemática na vida real e na solução de desafios práticos, nada. Depois, acham estranho que os alunos não gostem de matemática e que, mesmo massacrando-os com uma infinidade de contas, o desempenho na disciplina medido pelas avaliações do MEC é cada vez pior, ano após ano. Por conta disso, as licenciaturas para formar professores das áreas científicas estão às moscas, com mais vagas oferecidas do que alunos.

Não quero fazer parecer que o professor de matemática é o único culpado nessa estória, mas não dá para esperar que a inclusão da calculadora como ferramenta de ensino matemática seja feita por um professor de educação física! Aliás, isso é mesmo gozado, já que o aluno geralmente começa a usar calculadora nas aulas das demais disciplinas, onde os professores a permitem, pois querem desenvolver outras habilidades como objetivo maior de suas tarefas. Digo que o professor não é o único culpado porque a culpa maior é das mudanças rápidas que a sociedade vêm passando nas últimas décadas. As tecnologias avançam mais rapidamente do que nossos velhos hábitos possam alcançar. Porém, um professor de matemática moderno já devia estar consciente de que aprender as quatro operações e usar calculadoras não são situações que se excluam mutuamente. Pelo contrário, se complementam. Não acreditar nisso é quase a mesma coisa que dizer que um aluno só está alfabetizado quando consegue decorar todo o dicionário da Língua Portuguesa.

Já para quem defende que não se deve usar calculadora na escola porque no exame vestibular não pode, então proponho também que deixemos de usar em nossas escolas tudo o que não pode ser consultado num vestibular: atlas, dicionário, compasso, transferidor, jogos, livros didáticos e computador.

As escolas norte-americanas incentivam o uso da calculadora como ferramenta de investigação e de apoio ao ensino desde as séries iniciais. Isso há muito tempo, não é mais novidade. E o desempenho dos alunos deles anda bem melhor do que o nosso. Nas escolas do Oriente, o ábaco matemático (que pode ser entendido como uma calculadora primitiva) é usado há séculos como instrumento pedagógico. Veja o desempenho das crianças e adolescentes desses países em matemática: os melhores do mundo. E foi no Japão que a calculadora eletrônica se desenvolveu e barateou-se.

Lógico que só incorporar o uso da calculadora à nossa prática de ensino não vai trazer o paraíso à Terra, mas, sumir com ela do mapa, como fazemos por aqui, nos obriga a selecionar problemas medíocres e abstratos para as aulas (os livro didáticos têm problemas desse tipo aos montes), onde tudo é número inteiro, tudo é divisível por tudo, os valores monetários são sempre redondos e os números decimais não existem. Isso é cultura inútil e os alunos não querem e nem precisam disso.

Para quem quer ver onde isso leva, vá numa escola qualquer e peça para um aluno do último ano do ensino médio resolver, usando a calculadora, este problema:

 Um aparelho de televisão custa R$ 1.199 numa loja que aceita pagamentos em três parcelas sem acréscimo (não é sem juros - sem juros aqui só existiria na terra da fantasia, pois o juro está embutido no preço). Se o cliente pagar à vista, a loja concede um desconto de 17% sobre o preço marcado. Calcule o valor a ser preenchido num cheque para pagamento à vista.

 Posso apostar que boa parte dos alunos, senão a maioria deles (na maioria das escolas), não resolverá isso nem com e nem sem a calculadora. Isso porque nunca usou uma na aula de matemática, não sabe para que serve o botão de porcentagem (%) ou como fazer outra operação equivalente. Não sabe nem que o botão de ponto é na verdade a vírgula de nosso sistema. Provavelmente já começará digitando 1,199 (!!) e lá se vai tudo para o espaço. Manualmente, os poucos que darão uma resposta certa o farão com o uso da velha regra de três, demorando uma meia hora para faze-lo.

E que tal resolver esse, sem calculadora:  

Após aplicar numa caderneta de poupança o valor inicial de R$ 21.523,88, quanto posso retirar ao término de um mês, se os jornais indicam uma correção de 0,67% após trinta dias da aplicação?

 Segundo o professor Antônio José Lopes, o Bigode, autor com obra recomendada pela banca do PNLD-MEC, esse é um assunto que pede o uso de calculadora. Segundo ele, "os números da inflação não são fáceis e obrigá-los (os alunos) a fazer cálculos com lápis e papel só os afastará da Matemática".

Para quem ainda está desatualizado, vamos dar notícias do ano de 2001 (calma, já sei que estamos em 2015): os livros didáticos do MEC de matemática obrigatóriamente devem propor problemas e apresentar exercícios com o uso da calculadora e planilhas eletrônicas, ou nem serão aprovados para compra pelo Governo. Se você entrou (ou vai entrar) num curso da ETEC ou primeiro semestre do superior em cursos de Exatas, Engenharia, Administração, Contabilidade, Economia etc, obrigatóriamente vai ter que comprar uma HP-12C e saber operar Excel, pois o mundo real do trabalho não está mais contratando "fazedor de continhas"; esse emprego está extinto.

No Brasil, fala-se e escreve-se muito sobre Educação. Teorias, discursos educacionais, acadêmicos com fórmulas mágicas para tudo, grandes "projetos" pedagógicos, enfim, muita conversa e pouca ação. A maioria dos problemas com nosso ensino podem ser melhorados (ou até solucionados) com pequenas ações e uso adequado e racional dos recursos físicos disponíveis. Se você fala algo como incentivar o uso da calculadora como ferramenta pedagógica, o que até hoje é visto entre os acadêmicos da Matemática como uma fala politicamente incorreta, logo aparecem dezenas de teóricos também de outras áreas, dizendo que não é bem assim; que precisa ver o que diz fulano, beltrano; em que contexto sócio-pedagógico a coisa está inserida; o que os falecidos Piaget ou Vygotsky diriam; etc. Até concluir-se finalmente que nada pode ser feito, já que a coisa tomou proporções de uma discussão gigantesca e descabida. E isso acontece não só neste assunto que trato aqui : acontece em quase tudo que envolve materiais e processos de ensino! Ah, sim, um teórico já começaria dizendo que não devemos nos preocupar com processos de ensino, mas sim com processos de aprendizagem.

Creio que algumas coisas também não são ditas porque hoje, tanto na sociedade em geral quanto especificamente na área da Educação, a preocupação com o discurso politicamente correto é excessivo. Não se pode criticar mais nada nem ninguém, hábitos ou instituições. Já que todo o mundo que fala sobre Educação está sempre certo, porque a escola continua sendo um ambiente do qual o aluno sempre adoraria se ver livre? Não dá para ser um pouco mais politicamente incorreto?

Porque nem tudo que é politicamente correto é necessariamente moralmente correto, tecnicamente correto, socialmente correto, cientificamente correto...

  


Implementação de sala ambiente: orientações técnico-pedagógicas

Versão atualizada deste artigo foi publicada na revista Direcional Educador






   
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