Sala Ambiente - O Espaço do Ensino Médio

Publicado como "Sala Ambiente II , O Espaço do Ensino Médio"

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Somos limitados pelo nosso espaço de trabalho?

A sala ambiente na escola contemporânea

 

Muita coisa ainda se fala sobre o tema sala ambiente, sendo que hoje já temos uma certa valorização da mesma nas Redes públicas. Ao mesmo tempo há resistências em algumas escolas particulares e entre muitos professores para os quais a sala ambiente é algo temido.

Ouvimos falar que a sala ambiente tem esse papel de ser o "espaço de trabalho moderno, à serviço do educador e de seu momento". Será?

Ou será que é só porque as escolas norte-americanas a usam há décadas - os prédios muitas vezes já foram construídos e inaugurados com elas planejadas - que compramos a idéia? Será que vimos nos filmes made in Hollywood e imitamos porque é in?

 

Quero recorrer a um paralelo instigante: se você não está lendo este texto sentado em algum lugar da sua confortável casa, pense como está a sua sala de estar por lá. Foi você mesmo quem comprou todos os móveis? Escolheu as cores que mais gosta? Legal, hein!

Aposto até que você já mudou tudo - sofás, livros na estante, peixe no aquário - de lugar mais de vinte vezes. Não está tudo parecendo com a sua cara... a sua casa! Nenhum lugar pode ser mais completo para você.

Ninguém pode viver de boa vontade numa casa onde tudo já estava arrumado antes, onde a mobília não pode mudar de lugar nunca. A não ser que o seu endereço agora seja o de um hotel... ou motel!

Da mesma forma que você faz do espaço de sua casa uma extensão de seu ser, moldada à sua imagem e semelhança, o que podemos concluir sobre o nosso local de trabalho? Ele deve se moldar às nossas necessidades ou nós é que devemos nos moldar à ele?

Na Educação, creio que a prática eficiente é o bem maior e prioritário que perseguimos. Se a eficiência for a meta, à ela deve se adequar o espaço. Escolhemos uma ou outra configuração para o ambiente quando temos um ou outro objetivo à alcançar.

Se você pretende usar a poltrona preferida de sua sala para fazer suas leituras, você então coloca a mesma perto da janela ( e não no sotão !) quando decora o ambiente. Entretanto, se algum dia você estiver a fim de dar um cochilo depois do almoço na mesma poltrona, você vira ela para o outro lado, o lado mais escuro. Você não vai comprar outra poltrona por causa disso e ficar com duas - uma para ler e outra para cochilar - você não é louco, não tem dinheiro nem espaço para isso.

Numa sala de aula, o princípio é o mesmo: se você é o professor, controla meios, processos e didática, e quer produzir um debate ou discussão onde ver, ouvir o outro e o todo do grupo é fundamental, então você organiza a classe com alunos e carteiras em círculo. Num outro momento, se você tem uma atividade onde as tarefas propostas e as conversas em grupos vão enriquecer o processo para um tal objetivo almejado ser alcançado, então coloca-se as carteiras em grupos de alunos. Mas se naquele dia você quer apenas introduzir um conceito pontual novo, expor uma idéia curta ou fechar uma discussão ou atividade anterior, mudamos o lay-out para o sistema de fileiras de colunas ou linhas de carteiras. Porque assim todos na sala se alinham de frente para você, para o quadro negro, vídeo ou projeção, sem correrem o risco de ganharem um torcicolo. Você já assistiu à algum filme num cinema que tenha poltronas fixadas em círculo? Coisa de doido, lógico!

O fato é que, discutir se devemos pregar as carteiras dos alunos no chão de uma sala, seja em fileiras, em círculos ou seja lá como for, soa como uma alucinação. Lembro de uma grande escola tradicional da capital paulista que até hoje mantém as carteiras pregadas (literalmente) no chão de todas as salas, talvez para evitar que os alunos aprendam alguma coisa conversando com os outros.

Você pregaria os móveis de sua sala de estar no chão? Creio que você não faria isso porque sabe que tanto a sua sala de estar quanto a sua sala de aula precisam ser espaços mutáveis, sob domínio e ordem de suas vontades, necessidades e objetivos de momento. A sala de aula deve ser equipada e disposta conforme as necessidades do fazer de educador, do seu fazer de educador, que não é (e nem deve) ser imutável, e que também não é sempre igual ao de seus outros colegas professores. O lógico é pensar então que este espaço de trocas e de aprendizagens contínuas deve estar a serviço seu e dos alunos e não o contrário.

 

Deixe-me agora viajar para uma outra sala de aula em que já pisamos um dia: a sala do cursinho pré-vestibular. Bons tempos aqueles em que você ria das piadas e malabarismos do seu professor de cursinho preferido! Qual era mesmo a matéria dele? E o nome?

Bem, deixa para lá! Todo mundo sempre esquece tudo isso...

Quero lembrar é do ambiente da sala dos cursinhos, da disposição das carteiras, que todos sabemos bem qual é ( em linhas ou colunas, claro). Ótimo para aulas expositivas e para te ajudar a "engolir" rápido todo aquele conteúdo que você não tinha aprendido nos 11 anos anteriores de escola.

Mas e hoje? Como professor, a sua escola, seja pública ou particular, será apenas mais uma filial do Objetivo da padronização do conhecimento, tipo fast food?

Tudo que falamos sobre as carteiras vale expandir para a sala, que as contém.

Se a sala for um ambiente fixo dos alunos (e não fixa do professor e de sua área ou disciplina de atuação) estaremos de novo na mesma situação: "pregamos" o aluno no chão da sala, no mesmo lugar durante 5 ou 6 horas seguidas, num ambiente que não formataremos nunca ao gosto de todos.

Tentaremos então adequar todo o resto em função deste fato. Daremos sempre um mesmo tipo de aula, pobre, desconfortável e por fim ineficiente, pois deixamos uma situação física mandar numa ação. Cada professor que entrar ali estará preso na mesma armadilha, seja você ou qualquer um de seus colegas.

Não age você, não agem eles (os alunos), não age o grupo, não age a escola – enfim não há ação das pessoas sobre o espaço mas sim do espaço sobre as pessoas.

 

Não é verdade que a sala ambiente é só mais uma moda, como tantas outras que a Educação gosta de lançar de vez em quando, em especial através de seus acadêmicos de plantão. Também não é algo que se implemente por decreto, você educador vai compra-la quando entende-la, pode estar certo.

Conheço uma escola pública de ensino médio de São Paulo que a implementou, pioneira em sua região, logo no ano seguinte ao de sua construção... em 1968!! Nenhum professor da época está mais por lá, aposentados por tempo de merecimento. Mas curioso é que todas as gerações de novos diretores e professores que foram continuamente os sucedendo jamais imaginaram sequer desmonta-las para voltar ao sistema de aluno fixo e professor e materiais pedagógicos móveis, sistema em que foram formados por suas faculdades e cursos de licenciatura.

Não o fizeram simplesmente porque viram que elas, as salas, estavam já consolidadas à serviço de uma prática racional, um espaço deles. É preciso ver, conhecer e comparar para decidir.

Mais: um número impressionante de escolas classificadas no grupo de melhor desempenho do SARESP 2000 da Secretaria de Educação do Estado de São Paulo funcionam no sistema de sala ambiente. Em especial, nas escolas exclusivas de ensino médio, esta é hoje uma característica dominante no grupo de unidades escolares de bom desempenho nas avaliações da Secretaria (funcionavam assim também os antigos CEFAM, centros de formação para o magistério).

Mas se você ainda é um daqueles que acredita que a sua sala de aula pré-formatada e imutável é mais a sua cara, então desculpe-me por faze-lo perder o seu tempo com este texto. Porém não esqueça: sala ambiente é como a sua casa: nela tudo pode ser como você quer.

Somos filhos ou pais do ambiente que usamos como nosso espaço?

 

Para fundamentação teórica: 
  SACRISTÁN, J. G. , GÓMEZ, A . L. P. Compreender e transformar o ensino. 4. ed. Porto Alegre: Artmed, 1998. p. 263-265.
 
   Essa obra é uma das que mostram que alterações de metodolgia na Educação só ocorrem com a correta alteração nos espaços e disponibilizando materiais necessários. "As configurações de espaço já dadas são marcos para tornar possível algumas atividades mas outras não..." (p.264); "Tarefas e atividades inovadoras exigem contextos físicos adequados que não costumam ser herdados, pois no meio físico de que se dispõe só cabem determinadas metodologias " (p. 265). Por conta dessa falta de visão sobre o tema sala ambiente, muitos educadores continuam pregando (cegamente) mudanças na postura do professor, escola ativa, metodologia de projetos, investigação e pesquisa na sala de aula e uso de novas tecnologias, mas nada acontece porque a sala de aula fixa ainda é aquele formatada para giz, lousa e discurso.

Ver também: Implementação de sala ambiente: orientações técnico-pedagógicas




   
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